sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Assumida e transformada: Assunção de Maria

O que significa a Assunção de Maria? Esta festa celebra que, ao terminar sua vida aqui na terra, ela foi totalmente assumida por Deus, de corpo e alma. Não uma simples “viagem ao céu” ou a reanimação de um morto, como Lázaro (Jo 11,43-44) e o filho da viúva de Naim (Lc 7,13-15). O corpo de Maria foi transformado por Deus, embora não saibamos os detalhes. Ela já experimenta o que está prometido para cada um de nós: sermos semelhantes a Jesus ressuscitado (1 Jo 3,2). Paulo assegurou: se morremos com ele, com ele ressuscitaremos (Rom 6,8). Maria está junto de Jesus, glorificada por inteiro. Deus assumiu e elevou sua história, o sim renovado, suas ações, a sua pessoa inteira.

O dogma da assunção estimula a fé, especialmente quando o mal parece destruir as conquistas do Bem. Deus assumiu e transformou tudo de bom que Maria construiu aqui na terra, inclusive o seu corpo. Olhando para Maria glorificada, a gente se anima a lutar pelo bem e pela justiça. Mesmo que a incompreensão e o fracasso pareçam mais fortes, cremos na vitória definitiva do Cristo ressuscitado. Ele inaugura o “Novo Céu e a Nova Terra”, onde Maria já está. Lá, Jesus ficará definitivamente juntinho de nós (Fil 1,23). Não haverá nem morte, nem sofrimento. O Senhor fará novas todas as coisas (Ap 21,1-7).

A assunção de Maria foi o término feliz de seu peregrinar nesse mundo. Cada vez que ela dava novos passos para seguir a Jesus, para realizar a vontade de Deus, o Senhor ia assumindo e transformando sua pessoa. Até que chegou o momento final. Acontece algo parecido com cada cristão. Na vida de fé, cada novo passo novo corresponde a um dom da parte de Deus. Ele nos acolhe, toma-nos pela mão, assume-nos e nos transforma. Conforme o Concílio Vaticano II, Maria assunta ao Céu é a imagem e o começo da comunidade dos seus seguidores, a ser consumada no futuro. Ela brilha aqui na terra como sinal de esperança segura e de conforto para o povo de Deus peregrino, até que chegue o dia do Senhor (Lumen Gentium 68).

Texto: Afonso Murad - Folheto ODomingo

domingo, 13 de agosto de 2017

Maria e os evangelizadores

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho” propõe cinco atitudes para os evangelizadores, como pessoas e comunidades em missão (EG 24).

(1) Ir na frente: a comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (1 Jo 4, 10). Por isso, ela vai à frente, vai ao encontro, procura os afastados e chega às encruzilhadas dos caminhos para convidar os que estão à margem.
(2) Envolver-se: com obras e gestos, os evangelizadores entram na vida diária dos outros, encurtam as distâncias, abaixam-se e assumem a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Contraem assim o “cheiro de ovelha”, e estas escutam a sua voz.
(3) Acompanhar: a comunidade acompanha a humanidade em todos os seus processos, por mais duros e demorados que sejam. Conhece e suporta as longas esperas. A evangelização exige muita paciência, e evita deter-se nas limitações.
(4) Frutificar: o missionário mantém-se atenta aos frutos, porque o Senhor a quer fecunda. Cuida do trigo e não perde a paz por causa do joio. Encontra o modo para que a Palavra se encarne na situação concreta e dê frutos de vida nova, apesar de imperfeitos.
5) Festejar: os evangelizadores, cheios de alegria, sabem festejar. Celebram os passos dados, cada vitória. E se alimentam da liturgia.

Estas atitudes estão antecipadas em Maria, a mãe de Jesus. Ao olhar para ela, vemos que  Maria é o modelo dos discípulos-missionários/as.
- Maria sai na frente, indo depressa ao encontro de Isabel (Lc 1,39). Em Caná, toma a iniciativa, quando percebe que falta o principal da festa (Jo 2,1-12).
- Maria se envolve inteiramente na missão de educar Jesus. Quando este se torna adulto e parte em missão, ela acompanha discretamente seu filho. Diante da cruz, Maria assume a missão de mãe de toda a comunidade dos seguidores de Jesus (Jo 19,26).
- Porque Maria tem fé, escuta a Palavra, medita no coração e a frutifica. Bendito é o fruto de seu ventre, diz Isabel! (Lc 1,42). Quantas coisas boas Maria plantou e colheu durante sua existência.
- Por fim, ela sabe festejar. Seu cântico de louvor começa com uma explosão de alegria: “Minha alma engrandece o Senhor. E se alegra meu espírito em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46).


Que Maria nos inspire para evangelizar com generosidade, ousadia, persistência e alegria. Que o Senhor Jesus desperte nosso coração, mobilize nossos pés e nos leve por caminhos novos, a serviço da humanidade. Maria, nossa mãe e companheira, vai com a gente!

Afonso Murad - Publicado no folheto ODomingo.
Desenho: Anderson.

domingo, 6 de agosto de 2017

Perseverar no momento mais difícil

Uma característica decisiva do seguidor(a) de Jesus é o compromisso de vida que se prolonga no tempo, enfrentando as crises. Nas palavras do mestre: “permanecer em mim e eu nele” (Jo 6,56; 15,4) ou “permanecer no meu amor” (Jo 15,9). Jesus deseja estabelecer uma sintonia profunda, comunhão de mente e de coração com a sua comunidade. Tal é o sentido da imagem da videira e dos ramos (15,1-11). “Se vocês permanecerem na minha palavra, serão verdadeiramente meus discípulos. Vocês conhecerão a verdade, e a verdade fará de vocês pessoas livres” (cf. Jo 8,31s). Trata-se de uma atitude constantemente renovada: “Quem pretende permanecer nele, deve também percorrer o caminho que Jesus andou” (1 Jo 2,6).
Maria está junto à cruz de Jesus no dia de sua morte. Ela apareceu no início de missão de Jesus, em Caná (Jo 2,1-11), levando seus discípulos a acreditarem nele. Agora, volta de novo à cena. Dessa vez, no final de sua vida pública, mas não há nenhum sinal extraordinário. Ao contrário, o momento da cruz desafia a fé de qualquer um. Maria faz parte do pequeno grupo que perseverou, que não fugiu no momento da perseguição e da crucifixão de Jesus. É a corajosa companheira de Jesus, que permanece no seu amor. Imaginamos que ela se manteve de pé, o que significa persistência e constância na adesão.
Junto com Maria há outras mulheres: sua irmã, Maria de Cléofas, e Madalena. Sobrou somente um homem, o “discípulo amado”.  Estas pessoas seguem os passos de Jesus até o final, como seus discípulos, companheiros e amigos (Jo 15,15).
Maria permaneceu ao lado de Jesus na cruz porque andou no mesmo caminho dele, durante toda a vida. No início, como mãe e educadora, ela dava a direção e orientava. Quando Jesus se tornou adulto e partiu para a missão, Maria não ficou em casa curtindo a saudade, nem interferiu na sua atuação. Ela participou da nova família de Jesus, daqueles que escutavam sua palavra e a colocavam em prática (Lc 2,22). Portanto, a presença junto da cruz é a culminância de um vínculo estabelecido durante toda a vida.
Manter-se junto à cruz é gesto silencioso e profundo. Quando a dor é muito grande e a situação não tem explicação, não adianta falar. Basta a presença. Maria, as mulheres e o discípulo amado são os únicos que perseveram nesta situação tão difícil. Permanecem com Jesus e em Jesus, em público. Participam dos riscos e do escândalo de sua morte de cruz.

Maria, ensina-nos a andar no caminho de Jesus. Mantém-nos junto a Ele, perseverantes nas crises e dificuldades! Amém!
Texto: Afonso Murad - Folheto O Domingo
Imagem: representação africana da cena da cruz

sábado, 29 de julho de 2017

Sete Alegrias

A vida da gente é tecida com alegrias e tristezas. O que as qualifica não é a quantidade de momentos, e sim a sua intensidade e profundidade, segundo um projeto de vida. A devoção popular encontrou 7 alegrias na vida de Maria, que são inspiradoras para nós.

(1) O contentamento na anunciação (Lc 1,26): A primeira palavra dirigida a Maria é exatamente esta: “alegre-se”. Aliás, todo o relato da infância em Lucas está encharcado por este sentimento duradouro. Quando o messias vem, o povo se alegra. Maria prova uma imensa alegria ao receber o convite de Deus. Sente-se agraciada e envolvida por algo encantador.

(2) A alegria do encontro com Isabel (Lc 1,39-45): Maria sai às pressas para visitar sua parenta. Isabel é tomada de euforia. Proclama que Maria é especial: “feliz porque acreditou” e “bendita entre as mulheres”. Que cena linda: o encontro de duas mulheres, o cuidado cotidiano de uma com a outra, os sonhos e as esperanças em torno ao filho que vai nascer. Maria experimenta a alegria de ser missionária, de partilhar tempo e energia com quem necessita de proteção e ajuda. Pois há mais alegria em dar do que em receber!

(3) O cântico de Maria (Lc 1,46-55): este hino de louvor foi chamado de “Magnificat”, primeira palavra da sua tradução latina, que significa “engrandecer”, ou “cantar as maravilhas”. Maria está cheia do Espírito Santo e proclama as grandezas de Deus na sua história pessoal e na história de seu povo. É um cântico de alegria e de consciência profética, pois anuncia que Deus quer realizar a justiça na sociedade. Maria nos ensina a exercitar a ação de graças, a reconhecer os sinais de Deus na existência pessoal e nas práticas coletivas.

(4) O nascimento de Jesus (Lc 2,1-19): o nascimento de Jesus foi motivo de alegria para todo o povo, a começar dos mais pobres, representados pelos pastores. No céu e na terra! Todas as pessoas do Bem sentem-se amados por Deus, no momento em que seu Filho assume a natureza humana. Maria participa desta alegria de maneira única, como protagonista. Ela é a mãe do filho de Deus encarnado. Gerou, gestou e deu à luz à Jesus.

(5) Alegria na missão de Jesus: Maria ficou muito feliz, ao ver seu filho anunciar o Reino de Deus, curar os doentes, acolher os pobres e marginalizados, formar discípulos e discípulas. Eles experimentam um imenso prazer, quando percebem que Jesus é o vinho novo (Jo 2,10-11)! Jesus realiza as grandes esperanças de seu povo. Quanta alegria Maria viveu, ao acompanhar a missão de Cristo, como mãe e aprendiz.

(6) Euforia da ressurreição: Depois de viver a  trágica experiência da sua morte, Maria e os seguidores de Jesus provaram uma alegria sem par. Jesus está vivo! Ele nos dá a paz. Ele venceu a morte! (Jo 20,20-21). A ressurreição fez a comunidade compreender que o Homem de Nazaré é o Filho de Deus! Com este novo olhar, entenderam tantas coisas que Jesus fez e disse. Maria participa da ressurreição de Jesus de forma original: refaz lembranças, ilumina fatos, nutre sua fé, faz-se presente como mãe da comunidade.

(7) A alegria de Pentecostes: O mesmo Espírito de Deus, que fecundou Maria e acompanhou Jesus, agora fecunda a comunidade cristã. Cria a comunhão na diversidade, reúne o novo Povo de Deus para além das fronteiras do judaísmo (At 2). Maria, que junto com outras mulheres e os familiares de Jesus, orou com os apóstolos (At 1,14), acompanha a comunidade de forma discreta. É o tempo que se estende até hoje! A alegria de Maria e dos outros seguidores de Jesus se transforma na nossa alegria.

Ao percorrer as sete alegrias de Maria, cada cristão se reconhece nelas. Nossa vida de fé está marcada por muitos sinais de Deus que nos consolam, fortalecem e estimulam. Com Maria, cantamos, sorrindo: “O Senhor fez em nós maravilhas, Santo é o seu nome” (Lc 1,49).

domingo, 23 de julho de 2017

Maria e a alegria da festa

Numa festa animada, as pessoas se encontram e a alegria se multiplica. No tempo de Jesus, a festa de casamento tinha grande valor. As famílias se uniam e renovavam suas esperanças na continuidade da vida.  Recordava-se a aliança de Deus com seu povo (Is 62,5; Os 2,21-22). O vinho evocava o fascínio do amor humano (Ct 4,10) e o novo tempo do messias.
O evangelista escolhe as Bodas na cidadezinha de Caná para contar sobre o primeiro sinal de Jesus (Jo 2,1-12). Maria chega antes. Jesus e seus discípulos vieram também. Então, o vinho está terminando, a festa pode acabar! Maria faz um pedido discreto. Jesus responde: “O que nós temos a ver com isso, mulher? A minha hora ainda não chegou (Jo 2,4). O título “mulher” não é um desrespeito à sua mãe. Os profetas recorriam à imagem da mulher para representar a comunidade que responde ao convite amoroso de Deus. Jesus chama deste jeito à samaritana (Jo 4,21), anunciadora do messias para os não-judeus (Jo 4,28.41s). E à Madalena (Jo 20,15), primeira testemunha da ressurreição (Jo 20,17s). Assim, a mãe de Jesus é mulher e figura do povo de Deus fiel.

Parece que Jesus não quer se envolver com o problema. Maria não discute com ele. Rapidinho, encontra uma solução. Volta-se para os serventes: “Façam tudo o que ele disser a vocês” (Jo 2,5). Essas palavras têm grande força simbólica. Segundo João, Maria não só realiza a vontade de Deus na sua vida, como também orienta os outros a fazerem o que Jesus lhes pede. Torna-se assim a mestra e guia dos cristãos. Ela continua dizendo-nos hoje: “vale a pena buscar a vontade de Jesus, ouvir suas palavras e tomar atitudes concretas”. O documento da Puebla afirma que Maria é “pedagoga da fé”. Ela aponta para Jesus, leva-nos a ele, como fez com os que serviam na festa.
Os cristãos descobrem neste texto outras atitudes dela. Maria está atenta às necessidades humanas. Capta com grande sensibilidade um apelo que vem da realidade. Além disso, intercede junto a Jesus, para o bem de todos. Essa postura, que começa em Caná, continua hoje, pois ela é nossa intercessora, na comunhão dos Santos.

Jesus é o vinho novo e o esposo da festa da nova aliança de Deus com a humanidade. Começou o tempo da graça! Quem está com Jesus está com as vasilhas até a borda (2,7), transbordando de alegria. O Sinal de Caná abre caminho para a aventura da fé, pois a partir daí “seus discípulos creram nele” (2,11). A festa se conclui com o gesto de união, que reúne Maria, os discípulos, Jesus e seus familiares (2,12).

Que Maria de Caná desperte abra nosso coração para fazer o que Jesus disser;  e saborear a alegria do vinho novo, da festa da aliança e da fraternidade.
Afonso Murad - Publicado no Folheto O Domingo - Desenho: Max Gonçalves

domingo, 16 de julho de 2017

Quem são minha mãe e meus irmãos?

Certa vez, Jesus estava com seus discípulos e a multidão, quando alguém lhe disse: “Sua mãe e seus irmãos estão ali fora e querem vê-lo”. Jesus respondeu: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a colocam em prática” (Lc 8,19-21). Será que ele tratou mal à sua mãe? Teria esquecido a sua dedicação?

Um fato de hoje ajuda a entender a atitude de Jesus. Luis Carlos é voluntário da Pastoral dos enfermos. Nos hospitais, visita especialmente os que estão nas enfermarias e não recebem atenção dos outros. Veste um jaleco branco com o crachá de identificação. Um dia, se aproximou de uma mulher que estava sozinha. Quando ela o viu, reagiu: “Você não é da minha religião. Não quero saber de sua conversa! Vai embora”. Então Luis saiu, retirou o jaleco e o crachá. Voltou e lhe disse: “Joana, você aceita a visita de um amigo?” Meio sem graça, ela consentiu. E assim, Luis vinha visitá-la toda a semana. Até que um dia soube que Joana havia ganhado alta. Meses depois, quando estava no ônibus, alguém lhe bate no ombro. Luis se vira e vê Joana de pé. Ela olha nos seus olhos e diz emocionada: “Muito obrigado! Você foi para mim um irmão. Quando eu senti muita solidão e nenhum parente veio me visitar, você foi mais do que alguém da família!”

Jesus gostava muito de sua família. Ele recebeu boa educação de Maria e José, e não faria uma desfeita para sua mãe. No entanto, quando Jesus começou a sua missão, ele convocou homens e mulheres para fazer parte de uma nova família, não mais ligada por laços de parentesco. Nessa nova família o que importa era “ouvir a palavra e colocá-la em prática”, ser discípulo de Jesus, como a terra boa que acolhe e frutifica a semente do Evangelho (Lc 8,15). Alguns parentes não aceitaram a proposta de Jesus e o rejeitaram (Mc 6,1-6). 

Para Maria, a realidade foi outra. Ela não foi somente a mãe biológica, mas também aderiu ao grupo dos seus seguidores/as de Jesus. Acompanhava seu filho e os discípulos pelos povoados da Galileia. Na hora da cruz, Maria está ao lado de Jesus, com outras mulheres e o discípulo amado (Jo 19,25). Ela também participa da preparação de pentecostes (At 1,14 e 2,1). Maria fez parte tanto da família biológica de Jesus, quanto da nova família dos discípulos-missionários. Assim se entende a resposta de Jesus à mulher que, na multidão, elogia sua mãe biológica: “Felizes o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram”. Jesus diz: “Antes, felizes os que ouvem a palavra de Deus e a praticam” (Lc 11,27s). Tal expressão não é uma crítica, mas sim um elogio a Maria. Ela, mais do que ninguém, acolheu a palavra de Deus inteira e intensamente. Vivenciou-a de tal forma que se tornou, para todas a gerações, um modelo de fé, de amor solidário e de esperança.

Afonso Murad - Publicado no Folheto O Domingo - Ano Mariano
Imagem: Sieger Koder - Partilha do pão

sábado, 8 de julho de 2017

A vida em Nazaré: descobrir Deus no cotidiano


Constantemente somos bombardeados com o ideal do ser humano como “uma celebridade”, que deve aparecer o máximo possível. Nos perfil das redes sociais, as pessoas se mostram jovens e bonitas. Compartilham fotos e vídeos somente de momentos alegres. Por todo lado se estimula uma super-exposição. Nas igrejas cristãs se espalha a visão de que a fé exige milagres e manifestações extraordinárias. A meta é o sucesso na vida profissional, na saúde e na família. Acumular e mostrar muitos bens de consumo! Ora, se este é o modelo do ser humano feliz, então não se entende os longos anos silenciosos de Jesus em Nazaré, com Maria e José.

A chamada “vida oculta” da família de Nazaré nos diz que os frutos mais saborosos da vida necessitam de tempo para serem semeados, cultivados e amadurecidos. E há certos tesouros da vida pessoal que não devem se tornar públicos, pois perderiam seu encanto.
No livro O cotidiano de Maria de Nazaré, Clodovis Boff diz que na experiência de Maria, o lugar normal do encontro com o Divino é justamente o cotidiano. Assim, algumas pinturas representam a Anunciação quando ela se encontra fiando a lã ou tirando água da fonte. Ninguém podia imaginar o que se passava no reverso divino dessa vida igual à de todo mundo. Sua existência, seu rosto e até seu nome não tinham nada de especial no mundo em que vivia: eram comuns a tantas filhas de Israel.

Maria vivia esse cotidiano de forma extraordinária. Personificava cada evento, perguntando-se no fundo do coração o que Deus queria lhe dizer. A misteriosa alquimia para transfigurar sua vida era a meditação amorosa e confiante. Mulher reflexiva que era, repassava os acontecimentos de cada dia, num coração impregnado de fé e de amor (Lc 2,19.51). Ela experimentou sua existência com grande intensidade: a máxima alegria em eventos como a visitação e a ressurreição de Jesus, e a máxima dor em fatos como a perda no templo e a morte de Jesus na cruz.

O Papa Francisco nos diz: “a espiritualidade cristã propõe um crescimento na sobriedade e capacidade de se alegrar com pouco. É um regresso à simplicidade que nos permite parar a saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem entristecermos por aquilo que não possuímos. Isto exige evitar a dinâmica do domínio e da mera acumulação de prazeres” (Laudato Si 222). As pessoas que saboreiam mais e vivem melhor cada momento são aquelas que deixam de petiscar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coisa, aprendem a familiarizar com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas (nº 223).

Que Maria de Nazaré nos ensine a desenvolver a vida simples e centrada no essencial. Amém!

Texto: Afonso Murad - Publicado no Folheto "O DOMINGO"
Imagem: A Família de Nazaré - Murillo

sábado, 1 de julho de 2017

A mensagem atual de Aparecida

O Papa Francisco, em carta aos bispos da América Latina, diz que Aparecida é uma escola para aprender a seguir Jesus. E ele destaca três características.

(1) Os pescadores: são pessoas para encaram o dia a dia, enfrentando a incerteza do rio. Vivem com a insegurança de não saber qual seria o “ganho” do dia. Eles conhecem tanto a generosidade do rio, quanto a agressividade das águas nas enchentes. Acostumados a enfrentar os desafios da vida com teimosia, não deixam de lançar as redes. Esta imagem nos aproxima do centro da vida de tantos irmãos nossos. Pessoas que, desde cedo até a noite, saem para ganhar a vida, sem saber qual será o resultado. O que mais dói é ver que enfrentam a dureza gerada por um dos pecados mais graves do nosso Continente: a corrupção. Essa corrupção que arrasa com vidas, mergulhando-as na mais extrema pobreza. Corrupção que destrói populações inteiras, submetendo-as à precariedade. Como um câncer, vai corroendo a vida cotidiana de nosso povo. E aí estão tantos irmãos nossos que, de maneira admirável, saem para lutar contra este flagelo.

(2) A Mãe. Maria conhece bem a vida de seus filhos.  Está atenta e acompanha a vida deles. Maria “vai onde não é esperada. No relato de Aparecida, nós a encontramos no meio do rio, cercada de lama. Aí, espera seus filhos, está no meio de suas lutas e buscas. Não tem medo de mergulhar com eles nas situações difíceis da história e, se necessário, sujar-se para renovar a esperança”. Maria aparece onde os pescadores lançam as redes, ali onde as pessoas tentam ganhar a vida. Como mãe, está junto delas.

(3) O encontro. As redes se encheram de uma presença que deu aos pescadores a certeza que eles não estavam sós em sua labuta. Era o encontro desses homens com Maria. Depois de limpar e restaurar a imagem, levaram-na a uma casa onde ela permaneceu um bom tempo. Nesse lar os pescadores da região iam ao encontro de Aparecida. “E essa presença se fez comunidade, Igreja. As redes não se encheram de peixes, se transformaram em comunidade”.
Em Aparecida, encontramos um povo forte e persistente. Consciente que suas redes, sua vida, está cheia da presença Maria, que o anima a não perder a esperança. Uma presença que se esconde no cotidiano, nesses silenciosos espaços nos quais o Espírito Santo continua sustentando nosso Continente. Tudo isto nos apresenta sua mensagem, que devemos acolher.


Para terminar, Francisco nos diz: “viemos como filhos e como discípulos para escutar e aprender o que hoje, 300 anos depois, este acontecimento continua nos dizendo. Aparecida não nos traz receitas, mas chaves, critérios, pequenas grandes certezas para iluminar”. E sobretudo, acender o desejo de voltar ao essencial da nossa fé. Amém!

Afonso Murad - Publicado na "Revista de Aparecida"

sábado, 24 de junho de 2017

Aprender dos Encontros e desencontros

Vinicius de Morais dizia que “a vida é a arte do encontro, embora haja muitos desencontros pela vida”. Na existência humana é assim: por mais que se cultive a sintonia, o entendimento, a reciprocidade, há momentos em que as diferenças aparecem e surgem os conflitos. Também essas ocasiões são oportunidades de crescimento.

Lucas narra uma cena com Jesus adolescente, aos 12 anos (Lc 2,41-50). Quando alcançava essa idade, o homem era assumido como membro do povo de Israel. Deixava de ser uma criança. Maria e José  estão voltando da peregrinação ao templo de Jerusalém. Depois de um dia de caminhada, percebem que o menino não está no meio do grupo, nem entre os parentes e conhecidos. Voltam então ao templo, e três dias depois encontram Jesus. Ele ouvia, questionava e discutia com os “doutores”, nome dado aos que interpretavam as Sagradas Escrituras judaicas. A consciência messiânica irrompe neste adolescente inquieto, com impressionante vigor. Depois, serão muito anos de silêncio, em Nazaré, até que Jesus inicie sua missão (Mc 1,15).

Seus pais, ao verem tal cena, se surpreendem e ficam emocionados. Maria desempenha o papel que cabe a pais e educadores. Isso implica por limites, advertir, corrigir: “Meu filho, por que você fez isso conosco? Estávamos angustiados, à sua procura!”(v.48). Jesus responde de forma surpreendente, dizendo que ele deve estar na casa do Pai. E eles não entendem o que Jesus lhes diz. Precisavam ainda caminhar na fé, para compreender muitas coisas que Jesus dirá e fará, quando anunciar o Evangelho.

Então, eles voltam para casa. E, como acontecia naquele tempo (hoje não é bem assim), Jesus obedecia aos seus pais. E nesta vida simples, junto com seu povo, Jesus ia crescendo “em sabedoria, em estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52). Quanto à Maria e à José, eles também evoluíam, aprendendo e ensinando, em uma convivência amorosa e calorosa. E possivelmente aconteceram outras crises. Simeão havia profetizado: “Uma espada atravessará sua alma” (Lc 2,15). A dor na hora da cruz foi a mais evidente, mas outras também aconteceram.
Lucas repete a mesma expressão que usou na cena do nascimento: “Maria guardava estes fatos, meditando-os no seu coração” (Lc 2,19.51). Isso significa que Maria aprende com os fatos, estabelece a ligação entre eles, cresce na compreensão. A fé é sempre aposta em Deus, acreditar nas suas promessas, caminhar na esperança, em meio a luzes e sombras.


Que Maria nos ensine a bem educar as novas gerações, a aprender com os acontecimentos, a crescer no amor e na fé, nos encontros e desencontros da vida.

Afonso Murad - Publicado no Folheto O Domingo.
Imagem: Perda no templo - Versão Africana de jesusmafa.com 

sábado, 17 de junho de 2017

Ofertar para multiplicar: apresentação no Templo

Lucas 2,21-23 narra a ida de José, Maria e o bebê Jesus a Jerusalém. Por volta de 40 dias depois do nascimento do filho mais velho (primogênito), a mãe e o pai deviam ir ao templo de Jerusalém oferecer o filho a Deus. Levavam também a oferta para o sacrifício religioso, que normalmente era um cordeirinho. Mas, como Maria e José eram pobres, ofereceram somente dois pombinhos (v.24). No Templo, a família de Nazaré encontra o velho Simeão (v.25-35) e a profetiza Ana (v.36-38). Ambos representam o antigo povo de Israel, que acolhe com alegria e esperança o messias. Simeão profetiza que Jesus será causa de contradição, revelará o que está escondido no coração das pessoas e a própria Maria sofrerá na carne um grande conflito, devido às exigências de Jesus (v.34-35).

O gesto não visava somente cumprir um preceito legal. Quando Maria vem com Jesus e José ao templo, ela oferta a si própria a Deus. Carregando o bebê no colo, Maria se apresenta diante do Senhor com generosidade. Ela renova o compromisso que tinha feito com Deus, na anunciação. Pois as opções mais profundas na vida, mesmo se feitas uma vez para sempre, precisam ser renovadas e reafirmadas. Era como se Maria dissesse a Deus: Eu aceitei Teu chamado, e Teu filho se faz carne na minha carne. Obrigada! Agora, eu e José assumimos o compromisso de amá-lo e educá-lo. De Ti recebemos a graça desta criança. A ti oferecemos esta criança, como uma dádiva”.

L. Palú e R. Pelaquin, expressaram de forma poética a postura de Maria e José:
Nossa Senhora vai, por entre o povo/ À luz do sol, à luz das profecias.
Leva nas mãos o seu menino lindo/ No coração, certezas e agonias (alegrias).
E cada vez que eu abro as mãos, feliz/ Para ofertar com gosto o coração.
Eu me enriqueço, o mundo se enriquece/ Renovo o gesto da apresentação.
Leva seu filho ao Templo/ E o sacerdote ofereceu Jesus ao Pai da Luz
Maria ergueu suas mãos em prece/ que nunca mais ficaram sem Jesus.

Quando oferecemos a Deus nossos dons, trabalhos, conquistas e esperanças, recriamos o gesto da apresentação de Maria. Enriquecemos a nós mesmos, à sociedade e ao mundo. As mãos de Maria, que simbolizam a disposição livre de se engajar na causa de Deus, sempre estão com Jesus. Ela não o retém. Entrega-o a Deus e a nós.

Que Maria educadora nos ensine a surpreendente lógica do evangelho: quando partilhamos o que somos e temos, Deus multiplica as sementes e os frutos.

Afonso Murad - Folheto O Domingo - Ano Mariano (18/06/17)

domingo, 11 de junho de 2017

Maria e a Trindade

Nosso Deus se revela como o Pai criador, o Filho encarnado e o Espírito que dá vida e nos santifica. 

Quando proclamamos “Maria, mãe de Deus”, conforme o dogma, afirmamos que ela é a mãe do Filho de Deus encarnado. A pessoa inteira de Jesus Cristo, humano e divino. Ela não se torna uma deusa, nem é adicionada da Trindade. Como Deus-Comunidade se entrega a nós através de Jesus e do seu Espírito,  a maternidade de Maria toca cada pessoa divina.

Em relação a Deus-Pai, Maria é uma filha predileta, escolhida por Ele. Alguém agraciada com ternura pelo Criador, que a moldou com especial carinho. Ao mesmo tempo, Maria realiza, de forma humana, a eterna geração que o Pai realiza com o Filho, no seio da Trindade. Como toda mãe, ela é figura humana do amor criador de Deus.
Em relação ao Filho de Deus encarnado, Maria é mãe, educadora, discípula e companheira. Seu relacionamento com Jesus foi além dos laços de família. Esteve junto de Jesus durante a vida terrena, e agora, glorificada, continua pertinho do Filho ressuscitado, o Nosso Senhor.
Em relação ao Espírito Santo, Maria é a pessoa contemplada, ungida, transparente. Tornou-se um templo vivo de Deus. Os frutos do Espírito possibilitaram que ela se transformasse, por Graça de Deus, na mãe do messias e mãe da comunidade. Maria  participa de Pentecostes (At 1,13s e 2,1). O Espírito, derramado sobre a comunidade cristã, se torna o fogo que nos aquece e ilumina no seguimento a Jesus.

Quando se diz, que Maria é “mãe do criador”, não se fala aí de Deus Pai, mas do Filho de Deus que participa da criação (Jo 1,2s). A maternidade não diz respeito a Deus-Pai, nem ao Espírito Santo. Assim é a relação profunda de Maria com a Trindade: filha amada de Deus Pai, Mãe do Filho de Deus encarnado, ungida pelo Espírito.

Maria nos leva sempre a Jesus. Assim, vivemos nossa vocação de discípulos/as missionários/as do Senhor. E provamos a beleza da Trindade: Deus antes de nós (o Pai materno), Deus conosco (Jesus) e Deus em nós (Espírito Santo).

Afonso Murad - Material do Ano Mariano, publicado no folheto O Domingo
Imagem: Eva Campbell

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Maria e o Espírito Santo

Maria é especialmente contemplada pelo Espírito Santo. Torna-se mãe do Salvador devido à ação criadora dele. “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer será chamado santo, Filho de Deus” (Lc 1,35).
Há uma relação clara da ação do Espírito na Anunciação com dois momentos-chave na missão de Jesus. No batismo: o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele, E do céu veio uma voz: “Tu és o meu filho amado; em ti está o meu agrado” (Lc 3,21s). E na transfiguração: Estava ainda falando, quando desceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Eleito. Escutai-o!” (Lc 9,34s).
Na transfiguração uma nuvem desce sobre os discípulos e lhes cobre com sua sombra (Lc 9,34). Isso significa: envolver, proteger, revestir com a glória divina. Este fato nos lembra a nuvem que cobre a “Tenda do Encontro”,  ao acompanhar o Povo de Deus na sua peregrinação no deserto, rumo à terra prometida (Ex 40,35.37). Mais tarde, a tradição cristã relê este versículo e considera Maria como a nova tenda do encontro, na qual Deus se aproxima da humanidade por meio da encarnação de seu Filho.
O Espírito age em Maria não somente na encarnação do Filho de Deus, mas também lhe dando a energia para acolher o mistério divino, fazer-se serva e peregrinar como discípula do Senhor e mãe da comunidade.
O Espírito atua em Jesus, dá-lhe a força e poder de pregar e libertar (Lc 4,14.18). No tempo da Igreja, o Espírito é o poder de Deus,  concedido pelo ressuscitado aos que creem (At 1,8; 6,8; 10,38). Atualiza a presença de Jesus no mundo. Pelo Espírito, os seus seguidores operam maravilhas como Jesus: curar, perdoar, dar vida aos mortos, mover paralisados, expulsar as forças do mal, enfrentar os poderosos sem medo (At 3,6-10; 4,8-10). Na força do Espírito Santo, os cristãos enfrentam o sofrimento, a perseguição e a morte (At 12,1-5). A comunidade vive desafios novos, como a entrada dos pagãos no grupo dos seguidores de Jesus. É necessário arriscar e discernir a vontade de Deus à luz do Espírito, como acontece no Concílio de Jerusalém (At 15).
Maria participa da ação criadora do Espírito, individualmente, no seu próprio corpo. E toma parte da ação coletiva do Espírito em Pentecostes. Personagem central na encarnação, participa discretamente no mistério da difusão do Espírito a todos os povos.
Redescobrimos hoje a força do Espírito Santo na vida dos cristãos. Maria aparece como a figura do ser humano que se deixa moldar pelo Espírito. Nela o Espírito habita, faz morada, toca a corporeidade, a subjetividade, os desejos e as ações.
João Paulo II mostra essa ligação da ação do Espírito Santo em Maria, na anunciação e em pentecostes: “a caminhada de fé de Maria, que vemos a orar no Cenáculo, é mais longa do que a dos outros que aí se encontravam reunidos: Maria "precede-os", vai adiante deles. O momento do Pentecostes em Jerusalém foi preparado pelo momento da Anunciação em Nazaré. No Cenáculo, o itinerário de Maria encontra-se com a caminhada da fé da Igreja” (RM 26).
E Francisco nos diz que o Espírito Santo e Maria estão juntinhos, na nossa missão evangelizadora: Juntamente com o Espírito Santo, sempre está Maria no meio do povo. Ela reunia os discípulos para o invocarem (At 1, 14), e assim tornou possível a explosão missionária que se deu no Pentecostes. Ela é a Mãe da Igreja evangelizadora e, sem Ela, não podemos compreender o espírito da nova evangelização (EG 284).
Maria, templo do Espírito, é também profetiza da justiça e da misericórdia de Deus na história. Ela simboliza a humanidade transformada pelo Espírito. Este mesmo Espírito anima os que se empenham pela cidadania planetária, na qual se rompe a lógica da exclusão e se colocam juntos os humanos, a água, o solo, o ar, as plantas, os animais, e os ecossistemas. O Espírito, que dá a vida, renova por dentro a homens e mulheres, e os chama para cuidar da vida em toda a sua extensão, especialmente onde ela está mais ameaçada. Entre os mais pobres e excluídos. Em defesa da Terra e dos seus biomas.
O Espírito Santo faz com pessoas de diferentes línguas e culturas se entendam.  Ele nos impulsiona a cultivar a unidade, no meio das diferenças. Estar no Espírito significa superar os preconceitos, a intolerância, em favor do diálogo, do respeito e da colaboração recíproca. A começar da nossa comunidade, e passando pelas diferentes igrejas que formam a Igreja de Jesus. Por isso, a semana que antecipa pentecostes é especialmente dedicada a cultivar o ecumenismo. Na companhia de Maria, invocamos, como no Salmo 104: “Envia teu Espírito Senhor, e renova a face da Terra”.
Oremos:
Bendita és tu, Maria, templo do Espírito,
morada do Filho de Deus encarnado,
discípula e mãe ungida pelo Senhor Jesus. Amém


(Afonso Murad)

domingo, 28 de maio de 2017

Orar como Maria: o Magnificat

O evangelista Lucas coloca nos lábios de Maria um belo cântico, que em latim se chama “Magnificat” (Lc 1,46-56). Traduzindo na linguagem de hoje, seria: “proclamo a grandeza (de Deus)”. Baseado no cântico de Ana (1 Sam 2,2-10), e escrito muitos anos depois da visita a Isabel, o Magnificat expressa várias características de Maria. E consiste numa verdadeira lição de oração para nós, hoje.
Maria inicia sua oração com um louvor intenso, que brota do mais íntimo, onde se integram as emoções e as convicções (v.46-47). Qual a razão desta incontida alegria? Deus olhou para sua condição social: jovem, mulher, da desconhecida Nazaré, na Galiléia (v.48). Maria reconhece com gratidão que Deus fez nela maravilhas (v. 49). E aí reside o segredo da humildade: não em autodesvalorização, mas sim em uma percepção real do que somos, agradecendo a Deus por tanta graça recebida. A pessoa humilde, como Maria, não ignora suas qualidades; e sim as coloca à disposição dos outros.

A oração de Maria começa na interioridade, na alma, no espírito, no coração, e dali se expande. Sai de si mesma, louvando a Deus pela misericórdia que se prolonga “de geração em geração”, na história de seu povo, no atual momento e no futuro (v.50). Ecoa nela a fé bíblica que o amor de Deus é “para sempre”, pois podemos prova-lo tanto na criação como nos fatos (Sl 136).
A seguir, baseada no cântico de Ana e antecipando as Bem-aventuranças e os alertas de Jesus (Lc 6,20-26),  Maria proclama que Deus faz uma grande mudança na realidade social. A boa nova de Jesus tem repercussão estrutural. Exige uma mudança na distribuição dos bens produzidos e do exercício do poder (v.51-53). Embora utilizando a imagem da inversão, não propõe simplesmente uma mudança de posição, e sim novas relações.

Por fim, Maria recorda que este tempo novo do Messias, que se inaugura com ela, é a realização da promessa a Abraão (v.54-55). Este homem, símbolo da fé do povo de Israel, confiou radicalmente em Deus, deixou sua segurança para trás e saiu em busca de nova terra.
Portanto, o cântico de Maria resume os diversos elementos da oração cristã: louvor, ação de graças, recordação, súplica, reconhecimento da ação de Deus no coração de cada pessoa e na sociedade.  Situada no presente, faz memória e abre-se de forma esperançada para o futuro. Maria, ensina teu povo a rezar!

Fonte: Afonso Murad, Folheto O Domingo, 28/05/17

domingo, 21 de maio de 2017

Maria e Isabel: Um encontro surpreendente!

Lucas relata que, logo depois da anunciação, Maria partiu para a região montanhosa, onde morava sua parenta Isabel, casada com Zacarias (Lc 1,39-40). Isabel estava grávida de João Batista, o que era maravilhoso, pois ambos tinham idade avançada e Isabel, incapaz de ter filhos (1,7). Para os judeu, era triste chegar ao fim da vida sem deixar descendência.

Naquele tempo, sem recursos médicos, tal gravidez de risco exigia cuidados especiais. Isabel estava no sexto mês de gravidez. E lá foi Maria, apressadamente. Sim, o amor tem pressa. Não espera, antecipa-se, cuida, zela. Mas, pensando bem, que contribuição poderia dar uma adolescente como Maria, sem experiência de gravidez e parto? Não haveria outras mulheres e parentes vizinhas, mais aptas para isso? E pelo jeito, Maria ficou lá três meses e voltou antes do menino nascer (1,56-58).
A solidariedade se move por razões além da mera eficácia. Maria vai ao encontro de Isabel, porque o “sim” a Deus levava a um “eis-me aqui” para a pessoa humana em necessidade. A raiz da solidariedade não reside em fazer coisas ou dar objetos que sobram, mas sim fazer-se próximo, como Jesus conta na parábola do bom samaritano (Lc 10,29-37). Não aconteceu uma visitinha rápida, mas um permanecer na casa de Isabel durante 90 dias. Maria é exemplo dos cristãos solidários e missionários.

O que Maria leva para Isabel? Em primeiro lugar, o contentamento que ela recebe de Deus (1,28). O feto de João Batista vibra de alegria (1,41.44) dentro de Isabel, logo que Maria saúda sua parenta. Ela, cheia do Espírito Santo, proclama: “Bendita é você entre as mulheres e bendito é o fruto do seu ventre” (1,42). Não precisou falar nada. Bastou o encontro, a troca de olhares, o gesto de acolhida. Além disso, as duas compartilharam durante estes meses as alegrias e esperanças de duas mulheres grávidas. Maria ensinou e aprendeu muito com Isabel. E as duas não estavam sozinhas, pois as famílias judaicas se reuniam como clãs, com muitos parentes em volta. Aconteceu uma “comunidade solidária” de mulheres. Por fim, este encontro prenuncia a relação futura de João Batista com Jesus e prepara cântico de louvor entoado por Maria (1,46-55).

A Mãe de Jesus nos ensina a beleza e o valor dos encontros e das visitas. Que ela suscite em nós o ardor missionário de quem se faz próximo, para ajudar, compartilhar e aprender, na grande escola da vida.


Afonso Murad - 3ª Reflexão do Ano Mariano - Folheto O DOMINGO, 21/5/17

domingo, 14 de maio de 2017

José o companheiro fiel de Maria

Várias pinturas representam São José trabalhando na carpintaria, enquanto Maria se ocupa de Jesus. Atualmente  há gravuras mostrando o pai adotivo de Jesus cuidando do menino. Tal imagem corresponde melhor à visão do evangelista Mateus acerca de José.

Mateus relata a anúncio do anjo a José, durante o sono (Mt 1,18-25). Os dois estão prometidos em casamento, e Maria aparece grávida por ação do Espírito Santo. O que se passou com ele: perplexidade, dúvida, decepção, perda da segurança? Superada a crise, José acredita na sua amada, e apesar de todas as evidências, confia nela. É um homem justo (v.19), não por cumprir a lei, que o permitia denunciá-la por adultério. Mas sim porque realiza a nova lei do amor, que Jesus propõe no Sermão da Montanha (Mt 5,1-48). A misericórdia, consiste em ir além do que o outro aparentemente merece. Sentir por dentro sua dor e suas necessidades. José viveu este amor por Maria. E também foi correspondido. Entre os dois havia uma grande sintonia.

Segundo Mateus, José é o companheiro de Maria e o protetor de Jesus. Acolhe-a amorosamente como sua esposa (Mt 1,24). Conduz a criança e sua mãe para fora do país, a fim de escapar das garras do poderoso Herodes (Mt 2,13-15). Eles enfrentam os perigos da noite e de uma terra estranha, vivendo como refugiados. Anos mais tarde, José traz de volta a família (Mt 2,19-23), para Nazaré da Galileia. Lá trabalha como carpinteiro e agricultor e ensina seu ofício para Jesus. Vida silenciosa, aparentemente sem nada de especial. Junto com Maria, educou Jesus. Pois “o menino crescia em sabedoria, idade e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2,40).

Quantas coisas boas José e Maria compartilharam no correr dos anos que viveram, um ao lado do outro! Troca de olhares, afeto, cuidado, divisão de tarefas. Expectativas e preocupações do cotidiano de pessoas comuns. Alegria na mesa, contentamento com os primeiros frutos da colheita, oração em família. Ambos, educadores de Jesus, ajudaram a moldar o perfil humano do filho de Deus encarnado.
São José, companheiro fiel de Maria, rogai por nós!

Afonso Murad - 3ª Reflexão do Ano Mariano - Folheto O DOMINGO, 14/5/17

domingo, 7 de maio de 2017

Alegre-se! Deus está com você!

O relato da Anunciação (Lc 1,26-38) nos diz muito sobre Maria, exemplo de vida para nós, cristãos de hoje.
Gabriel, o mensageiro de Deus, saúda: Alegre-se! (v.28). Convida Maria a participar da alegria do novo tempo, que começa com a vinda de Jesus. Lucas destaca a alegria como sinal próprio de Jesus e de seus seguidores (Lc 10,17.21; 19,37; 24,52). Maria é a primeira convidada a se alegrar. Quando Deus se aproxima de nós, contagia-nos com sua alegria. É surpresa e gratuidade, encanto e novidade recriadora.
Maria recebe um nome especial, que nenhuma outra pessoa tem na Bíblia: agraciada, favorecida, aquela que tem o favor do Senhor, ou que “encontrou graça diante de Deus” (v.30). E com uma intensidade tão grande! São Jerônimo, quando traduziu a bíblia para o latim, usou a expressão “cheia de graça”. Deus prepara Maria para um grande desafio, iluminando-a especialmente com sua Luz divina.

A seguir, diz: o Senhor está com você. Na bíblia, quando alguém recebe uma missão importante e difícil, tem a promessa que não estará sozinha; Deus lhe dará forças para realizá-la. Por exemplo, no chamado a Moisés (Ex 3,11s e 4,12), a Gedeão (Jz 6,12) e a Jeremias (Jer 1,19). Pede-se que a pessoa não tenha medo, confie em Deus e se comprometa, como acontece com Maria.

Alegre-se, agraciada, o Senhor está com você. Essa frase revela quem é Maria aos olhos de Deus: mulher tocada pela graça divina, que a faz encantadora, agraciada e graciosa. Ser humano iluminado pelo Deus da Vida. Colaboradora de Deus, como mãe e educadora de Jesus. Pessoa forte para lidar com os medos e enfrentar os desafios.

Também essa expressão toca cada discípulo(a) missionário(a) de Jesus. Deus convida para alegria duradoura, que só ele nos dá. Concede-nos tantas bênçãos e graças no correr da existência. Como somos agraciados! Encanta-nos com seu amor misericordioso. Quer contar conosco para promover o bem no mundo. E para isso, nos alerta: as dificuldades virão. Mas eu estou com vocês. 
Que Maria nos dê a generosidade de responder, com alegria e coragem: sim, conte comigo, Senhor!

(Afonso Murad - Publicado no Folheto Litúrgico O DOMINGO, em 7/5/17)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Deus vem ao encontro de Maria (anunciação)

A anunciação a Maria (Lc 1,26-38) se assemelha a outras cenas bíblicas de anúncio de concepção e nascimento, como a Abraão (Gn 17,19-21) e à mãe de Sansão (Jz 13,1-6). No evangelho de Lucas, está construído em paralelo com o anúncio a Zacarias (Lc 1,5-20). Todos eles mostram que o Senhor toma a iniciativa e que deste encontro resulta algo muito bom para a pessoa e o povo de Deus.

A bíblia, palavra divina em linguagem humana, utiliza gêneros literários. Reflexão de fé, utiliza elementos poéticos e simbólicos. Por isso, não se pode tomar isoladamente cada palavra ou frase, com se fosse simples descrição histórica. O que nos comunica o gênero literário anúncio? Deus toma a iniciativa. Ele vem sempre na frente, preparando o futuro. Através de um mensageiro divino, denominado “anjo”, anuncia que virá uma criança importante, para contribuir no processo de salvação. Às vezes, há obstáculos a serem superados. A pessoa questiona “como acontecerá isso?” e Deus lhe oferece um sinal.

Mas o anúncio a Maria é o único na bíblia que termina com uma resposta. Também é um relato de missão. Prepara o nascimento de Jesus e também diz da vocação especial de Maria e de sua resposta generosa. Deus toma a iniciativa. Maria se sente agraciada por Deus, dialoga com ele e, ao final, responde com inteireza. Compromete-se em ser a mãe do salvador. E a vida dela mostrará muitos outros compromissos.

Maria nos revela o jeito cristão de ser. Tudo começa de Deus, que vem ao nosso encontro, independente do lugar onde estamos (Lc 1,28). A gente se encanta com sua luz e bondade. Percebe também as dificuldades e obstáculos. E como Maria, podemos dizer: “eis aqui o servidor(a) do Senhor. Que se faça em mim segundo a sua vontade” (Lc 1,38).

Afonso Murad - Publicado no Folheto "O Domingo", para o ano Mariano

terça-feira, 2 de maio de 2017

Maria: discípula, mãe e irmã (Segundo Agostinho)

Peço-vos que repareis no que diz o Senhor ao estender a mão para os seus discípulos: Estes são minha mãe e meus irmãos e Quem fizer a vontade de meu Pai, que Me enviou, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. Porventura não fez a vontade do Pai a Virgem Maria, que acreditou pela fé e concebeu pela fé, que foi escolhida para que d’Ela nascesse a salvação entre os homens e que foi criada por Cristo antes de Cristo ter sido criado n’Ela? Maria cumpriu, e cumpriu perfeitamente, a vontade do Pai; e, por isso, Maria tem mais mérito por ter sido discípula de Cristo do que por ter sido mãe de Cristo; mais ditosa é Maria por ter sido discípula de Cristo do que por ter sido mãe de Cristo. Portanto, Maria era bem aventurada, porque, antes de dar à luz o Mestre, trouxe O no seio.

Vê se não é como digo. Passava o Senhor, acompanhado da multidão e fazendo milagres divinos. E uma mulher exclamou: Bem aventurado o ventre que Te trouxe. Ditoso o ventre que Te trouxe. E o Senhor, para que se não buscasse a felicidade na natureza material da carne, que respondeu? Mais felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática. Por isso também Maria era feliz porque ouviu a palavra de Deus e a pôs em prática; guardou mais a verdade de Cristo na sua mente do que o corpo de Cristo no seu seio. Cristo é verdade; Cristo é carne. Cristo é verdade no espírito de Maria, Cristo é carne no seio de Maria; é mais o que está no espírito do que o que se traz no seio.

Maria é santa, Maria é bem aventurada. Mas é mais importante a Igreja do que a Virgem Maria. Por quê? Porque Maria é uma parte da Igreja, membro santo, membro excelente, membro supereminente, mas apesar disso membro do corpo total. Se é membro do corpo, é certamente mais o corpo do que o membro. A cabeça é o Senhor, e Cristo total é a cabeça e o corpo. Que mais direi? Temos no corpo da Igreja uma cabeça divina, temos a Deus por cabeça.

Reparai, portanto em vós mesmos, irmãos caríssimos. Também vós sois membros de Cristo, também vós sois corpo de Cristo. Vede como o sois, quando Ele diz: Eis minha mãe e meus irmãos. Como sereis mãe de Cristo? Todo aquele que ouve e pratica a vontade de meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. Quando diz «irmãos» e «irmãs», fala evidentemente da mesma e única herança. É uma só, na verdade, a herança. Por isso, a misericórdia de Cristo, que sendo único não quis ficar só, fez de nós herdeiros do Pai e herdeiros consigo.

Fonte: Sermões de Santo Agostinho,  Sermo 25, 7-8: PL (Patrística Latina) 46, 937-938)

sábado, 22 de abril de 2017

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Maria junto a cruz

Firme de Pé, junto da Cruz
Estava Maria, a mãe de Jesus


domingo, 2 de abril de 2017

Curso MARIA NA BÍBLIA



Caros amigos e amigas:

Tenho um presente para vocês e suas comunidades: Curso de Educação a Distância sobre Maria na Bíblia. São 10 vídeo-aulas, gratuitas, com texto para acompanhar, realizado em parceria com a Século 21. Olhem! Se gostarem, usem e me ajudem a divulgar! 
Cliquem no link abaixo para se inscreverem no curso.


http://www.eadseculo21.org.br/ead/?opcao=visualizarCurso&ID=762&utm_source=newsletter&utm_medium=email_20170330&utm_campaign=divulgacao_curso_maria&utm_content=curso_maria_ead